Inflação abaixo da meta?

Nesta quarta-feira, dia 23 de maio, foi divulgado o resultado da prévia do IPCA-15, que seria uma prévia do indicador oficial da inflação do país. Quem realiza a pesquisa é o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e falarei ainda essa semana sobre como o IPCA é formado e calculado. Antes disso, vamos falar sobre a Meta da Inflação. Novamente a inflação ficou abaixo do piso da meta. E isso não necessariamente é algo bom.

Brinca com ele pra ver só...

Desde 1999 o Brasil possui um sistema de metas financeiras, em especial, para a inflação. Nos 20 anos antes desse sistema, o país sofreu com aumentos absurdos de preço, de forma totalmente descontrolada.

Com toda certeza os país de vários leitores desse blog, assim como os meus, passaram por essa época desesperadora, onde no dia em que o salário era entregue nas mãos do funcionário, ele corria até o mercado fazer o rancho e comprar tudo o que desejava antes de encerrar o dia, pois na manhã seguinte, o dinheiro já não valeria a mesma coisa.

Por isso o Kinder Ovo tá tão caro

Imagine você, hoje, receber R$100,00 e na manhã seguinte ter apenas o poder de compra de R$40,00. Esse era o dia a dia de seus pais. E agora fica mais fácil entender o motivo do brasileiro fazer o tão conhecido "rancho" no início do mês e encher os carrinhos de compras.

A loucura era tanta que o governo tomava medidas radicais para tentar impedir o avanço da inflação, indo desde congelar preços, confiscar o dinheiro na poupança e mudar a moeda do país algumas vezes por conta do mínimo poder de compra que a moeda possuía.

Indo na padaria em épocas de hiperinflação

O Plano Real, criado em 1994, trouxe nosso querido Real unido de algumas medidas de proteção à moeda nacional. Mas apenas em 1999 que foi decidido se estipular as metas da inflação e deixar essa responsabilidade à cargo do Conselho Monetário Nacional, que é formado pelo presidente do Banco Central (BC) e os ministros da Fazenda e do Planejamento. Juntos, eles decidem qual deve ser a meta da inflação nos anos seguintes e estipulam as medidas necessárias para se alcançar a meta. Um fato curioso é que, caso a meta não seja cumprida, o presidente do BC deve escrever uma carta reportando os motivos que levaram isso à ocorrer e quais as medidas que serão tomadas. Isso havia ocorrido apenas 4 vezes, no anos de 2001, 2002, 2003 e 2015. Todas as vezes por fica acima da meta estipulada. Entretanto, em 2017, o BC teve que explicar o motivo da inflação ter ficado abaixo da meta.

Trecho da carta com a explicação

Agora, ainda que a inflação tenha ficado abaixo da meta, ela está em níveis administráveis. O problema ocorrerá se ela continuar a cair.

Como disse no post anterior, a inflação ocorre pois o dinheiro perde o poder de compra, geralmente por existir uma demanda maior do que a oferta. Agora, no caso da oferta se tornar maior que a demanda, o que ocorre? Se você respondeu "Uma baixa nos preços", entendeu a lógica básica. E foi por isso que a inflação de 2017 ficou abaixo da meta, pois tivemos uma safra maior do que a prevista, o que aumentou a oferta e jogou os preços dos alimentos para baixo, e o setor alimentício (principalmente as frutas) representa uma boa fatia do Índice do IPCA.

Agora, e se nos demais setores a procura começar a se tornar baixa, como nos setores de serviços ou comércio em geral? A baixa procura pode, ao invés de fazer os preços recuarem, desmotivar o empreendedorismo e obrigarem algumas empresas a diminuírem custos, principalmente com mão de obra. Esse tipo de situação ocorre nas épocas de deflação, que seria o inverso da inflação. Nesse cenário, como a população está com pouco dinheiro, não possui meios de comprar, o que desacelera a economia.

Pense você, como produtor de algo, ver seu estoque valendo cada vez menos a cada dia que passa. Os clientes, cientes que se esperarem alguns dias o preço será cada vez menor, começam a comprar menos. Isso acaba por forçar os preços ainda mais para baixo, obrigando os produtores a reduzirem produção e custos, gerando desemprego e enfraquecendo a economia, diminuindo ainda mais o consumo. Isso é uma bola de neve gigantesca.

Um exemplo dos problemas da deflação ocorreu logo após o famoso crash na bolsa de NY. Naquele momento, as pessoas pararam de consumir, com medo do que ocorreria a seguir. Assim, os produtores se viram obrigados a baixar os preços para tentar vender. O problema ficou tão grave, que chegou no Brasil. Na época, exportávamos muito café para fora. Mas como os consumidores estavam com medo de gastar, não tínhamos para quem vender. Os preços despencaram, junto ao preço de muitos outros itens. Os consumidores, vendo que se não comprassem nada, no dia seguinte seu dinheiro tinha mais poder de compra, pararam de vez de gastar.  Não existindo demanda, fábricas e comércios cortaram custos, gerando uma onde gigantesca de desempregados.

Naquele momento, o governo precisou intervir de um jeito nada convencional, mas extremamente funcional: Primeiro, comprou e queimou milhões de sacas de café, de forma a diminuir a oferta do produto para tentar elevar novamente seu preço; Em seguida, aumentou os custos públicos para incentivar a economia do país.

Getúlio Vargas na festa da economia

Acho que dessa forma, fica mais fácil não odiar tanto a inflação, já que o mais saudável para a economia de um país é que haja uma inflação controlada. Alguns economistas dizem que de 2% a 4% seria o ideal, pois gera um aquecimento na economia e ajuda o motor a girar.

Enfim, por hoje é só.

Observações Finais:

  • Quando a meta é traçada, ela possui uma "gordura" para cima e para baixo, chamado de Teto da Meta e Piso da Meta. A meta é manter a meta no meio dessas metas.
  • Para entender um pouco mais sobre o plano de metas, clique aqui.

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